domingo, 7 de outubro de 2007

CARTAS AO MEU FILHO (1)

Meu querido filho,


Estou há tempos para te escrever mas a vida, sabes como é, inventa mil tropeços e os dias vão passando e, de repente, vou para te sentar ao colo e dar-te a sopa quente quando me apercebo de que tu até já tens barba e és um homem.

Digamos que estou numa daquelas idades em que se tem a presunção de saber meia dúzia de coisas bem sabidas. No entanto, aqui entre nós, quantas vezes já vi surgir uma rajada de vento que nos derruba as certezas e, no lugar delas, deixa um monte de dúvidas e perguntas.

É neste fazer e desfazer que a vida tem tanto de terrível como de maravilhoso, tal e qual o grande mar que lá numa funda oficina de algas e espuma vai construindo os seus fantásticos universos de calcário.

Já devo estar a armar-me em poeta. Pelo menos é o que eu penso que tu pensas. E, além disso, eu vinha para te falar de outra coisa.

Vinha para te falar do momento forte e largo em que nasceste.

Era domingo. Eu sabia que estava para acontecer um tremor de terra na minha vida. Mas não lhe adivinhava a força nem o quanto ele ia rasgar-me e acrescentar-me.

Eu tinha 20 e tal anos e era eterno. Melhor dizendo, eu sabia que todos nós envelhecemos e morremos. Mas nessa altura era eterno. Já tinha sentido o bafo da morte nos meus braços onde a minha linda avó deitara a cabeça, cansada de respirar. Mas apesar de tudo era longe dos meus ossos jovens que a morte passara. A velhice ficava a uma distância muito grande e eu era definitivamente eterno.

Era domingo, portanto, quando tu chegaste. Eras um corpinho vermelho em cima de panos verdes, o maior acordo e desacordo que já vi em toda a minha vida.

Eras um grito de mundo a rebentar, um grito chegado do mais fundo do sangue e da Terra, o grito vermelho e verde da tremenda violência que é começar a respirar.

E eu chorei e chorei, como só um homem pode chorar quando lhe nasce um filho. E nem tinha mãos que te agarrassem. E nem palavras porque não as há quando tudo é um vulcão que desata a explodir pela primeira vez e o universo começa a inchar e a correr em todas as direcções.

Fiquei pequenino, vaca e burro de Presépio a olhar para ti. Recolhi-te na côncava do coração e lá ficaste para sempre, enquanto as estações corriam e correm mudando o lugar dos dentes e fazendo nascer uma e outra e outra vez a flor irrepetível.

Agora, de repente, já tens barba e um incêndio de ideias a romper nos olhos e queres ser um homem inteiro, um artista, uma ave, um cidadão de pé nos braços da dignidade, e amas uma menina, uma mulher como tu, e eu digo Boa Viagem e parece que foi ontem o dia em que chegaste e eu perdi para sempre a eternidade.

4 comentários:

Maria do Mar disse...

Este Blog está uma doçura! A energia, a força, a afabilidade das palavras chega aqui: B.2,3/Sec. da Golegã.

Graça Rocha disse...

José, neste "Cartas ao meu filho" consegue sentir-se a alma toda, comtanta vida está dito. Abana o coração.
Bem-haja!!

jorgepaulos disse...

Sem palavras ... muita ternura e amor ! Parabéns Fanha.

helena pires disse...

Sou professora de Português na Calazans Duarte, na Marinha Grande.
A carta é um dos conteúdos trabalhados no 10º ano. A sua carta "mexe" connosco e "dá vontade" de mexer com ela. Gostaria de lhe pedir licença para a utilizar numa das minhas aulas...
Obrigada!!